terça-feira, 6 de outubro de 2009

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ancing Queen"

Era outro o tempo. De tudo, não sabia. De mim, ai de mim, não sabia.
Havia apenas a impressão de ser: levemente triste, levemente melancólica.
O que eu seria em alguns instantes?
Seria a primeira vez de muitas experiências:
A madrugada toda em festa. Amigos recentes. A primeira tequila e tudo e tudo transtornado. Tanta música a mover os corpos. Entre os rostos, nenhum nome.
Eu, adolescente, nunca mais criança.
Era o início da liberdade?
O que descobriria além da fumaça perfumada?
Porque eu era também cinza.
De repente: silêncio.
A fumaça e a tequila a queimarem em mim.
De repente: “Dancing Queen”.
Meu Deus!
Ela flutuava.
Os seus olhos eram verdes e a sua pele era dourada.
Meu Deus!
Seus olhos prendiam-me em uma imensidão cintilante.
Ela dançava.
Era a alegria fora de mim. Sim. Ela dançava todas as cores como rainha.
Para mim, uma deusa.
Em um relance, vi rapazes corarem.
Em um relance: Ela era ele? Eu era ele? Ela era eu?
Tudo transtornado: os meus olhos viam a rainha.
O menino transformado em rainha e eu transformada em menino?
Eu corei. Era o amor. Era o instante. Era a tequila. Era “Dancing Queen”.
Tanta irradiação. Eu já não era levemente melancólica. Eu era brilhante.
Foi a primeira vez. Ela sorriu. Ela era toda transformada em deusa. Ela era a alegria que ainda estou sempre a buscar.
Ela era ... fiquei comovida.
A beleza bota a gente comovida como o diabo. Mas eu não tinha lido Bandeira e não sabia que se podia chorar, sendo ... não sendo mais criança. Faltava-me linguagem para explicar que ela seria sempre a rainha dançando, em outro tempo, dentro em mim.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Conversa com Naná

- Tia Carla, olha só a borboleta que eu peguei.
- Que linda borboleta colorida. Mas se você continuar prendendo-a entre seus dedos, ela vai morrer.
- Mas, então, o que é morrer?
- Ah, Naná, morrer é deixar de fazer aquilo de que se gosta.
(Silêncio)
- Então, já sei: morrer é deixar de voar!
- Isso mesmo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

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o mês é setembro:
esperemos pela primavera.

domingo, 30 de agosto de 2009

HOLE

Acontece às vezes de a incompreensão aponderar-se do conjunto limitado de palavras que constitui a nossa percepção de mundo. Com as palavras perdidas no universo do não-entendimento, altera-se o modo habitual de apreender a realidade, a qual, de familiar, passa a ser insólita e perigosa; isso, evidentemente, no instante exato em que os significados dissipam-se em silêncio caótico.
Sentimos, ainda sem linguagem, o nosso ser tornar-se lembrança para nós mesmos. Morrem-se os signos, enterramos um modo de perceber. Mas não permanecemos no estado desconhecido por muito tempo, não sei se por medo ou por impossibilidade, logo após o choque causado pelo transtorno da ordem, lá vamos nós ressignificar as coisas, reconfigurar dores, recortar verdades transcendentais e, sobretudo, assegurar para que as novas palavras sejam constituintes de um enredo seguro e menos sofrível ...

Houve um tempo em que os meus desejos estavam ocultos em palavras, cujos significados desconhecia. Houve um tempo em que o silêncio da incompreensão clamava por uma voz de entendimento. Enfim ...
Houve um tempo em que eu não sabia sobre as coisas do meu mundo,então, todas as coisas do mundo, com seus signos dados, foram a minha linguagem.

A música sempre foi, para mim, uma importante linguagem de apoio. Quando eu não sabia o que dizer, era a melodia, era o som, era a letra, era o arranjo de diferentes artistas que diziam por mim. Para exemplificar: Hole, na adolescência. Durante muito tempo, as minhas inquietações desejosas entraram em sintonia com os sons inquietantes dessa banda grunge.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

a rua


O homem vagueia sem cessar...e avança para dentro de si.
 um dia já foi, ele encontra o menino por detrás da janela de vidro a olhar o mundo. E o mundo todo era apenas uma rua repleta de outros meninos guardiães da infância.

O menino não sabia que havia eternidade nos gritos sorridentes dos outros meninos. E o homem não sabia que havia maravilha ao pisar em espaços desconhecidos do mesmo lugar.

Quando o mundo todo era apenas uma rua, a rua era o lugar maravilha de todas as coisas inexistentes.

sábado, 11 de julho de 2009

Inverno

A sua voz quente em meus olhos.
O meu corpo todo inteiro naquele espaço e naquele tempo.
O mês é julho: sou paisagem deserta, filha do inverno. E sinto tudo o que se desfaz nesta estação.
Você disse: os teus olhos brilham e brilham este espaço cinza.
Os meus olhos descansam em paisagens geladas.
Quando caminho pelas ruas solitárias, e há frio, e há silêncio, e o meu nariz está vermelho, e o rosto pálido e as minhas mãos estão geladas, eu sinto a vida realizar-se com força.
Você disse que sou filha do vento e que em mim há um vasto silêncio. E disse mesmo que sempre envelheço no inverno.